SARA EUSTÁQUIO, A REALIZADORA POR DETRÁS DE ‘‘4242’’

14/07/2016
O ICA conversou com Sara Eustáquio, jovem realizadora de 16 anos que já viu a sua obra ‘‘4242’’ receber dois prémios.

"4242” é a primeira curta-metragem de Sara Eustáquio. O filme, que aborda o processo de adaptação dos imigrantes à terra de acolhimento, já venceu o prémio Júnior Revelação (prémio especial do júri para novos valores) em Israel, bem como uma menção honrosa na competição de curtas-metragens do Best Shorts, em Los Angeles. Desde então, já foi selecionado para novas competições, tanto em Portugal como além-fronteiras.
Para ficarmos a saber mais sobre "4242”, falámos com Sara Eustáquio, a realizadora da obra, que nos contou como o cinema tem influenciado a sua vida e o seu trabalho.

 

SARA EUSTÁQUIO, CINEASTA.

Acaba de receber dois prémios internacionais: o que representam para si estas duas distinções?
Estas duas distinções significam muito para mim e dão mais vontade para continuar. Trabalhámos muito e sentir que o nosso trabalho está a ser reconhecido é ótimo. 


Estava de alguma forma à espera de receber estes prémios?
Estes prémios apanharam-me completamente desprevenida. Não estava à espera de os receber. O objetivo era chegar apenas a uma seleção oficial em festivais, que por si já é um grande prémio.

Recuando um pouco no tempo: qual a origem do seu interesse pelo cinema?
Desde pequena que vejo muitos filmes porque em casa sempre houve um grande gosto pelo cinema. No entanto, no 9º ano, para um trabalho de grupo na escola, fizemos um vídeo sobre o cyberbullying que foi carregado para o YouTube e nas primeiras semanas ganhou logo muitas visualizações. Como antes já costumava editar muitos vídeos por divertimento, comecei a tomar mais atenção a essa área e a ver filmes mais clássicos e um bocado fora do circuito comercial. Desde aí, a minha paixão pelo cinema cresceu e tive a certeza que era essa a área que eu queria seguir.

Nesta área, quais são as suas principais referências?
Há muitos atores e realizadores que admiro pelos seus trabalhos. Gosto de vários géneros, desde romances indie a thrillers e terror. Aprecio bastante o trabalho de realizadores como Quentin Tarantino, David Fincher, Sofia Coppola, Gus Van Sant, entre muitos outros.

É mesmo verdade que anda sempre com a câmara de filmar consigo?
Nem todos os dias ando com a câmara de filmar comigo, mas como tenho sempre o meu telemóvel e ele já tem muito boa qualidade, costumo usá-lo para filmar algumas coisas ou até mesmo fotografar. Assim, "estudo” alguns locais e, quando precisar de filmar alguma coisa com a minha câmara vou logo direta aos sítios que me interessaram. Noutras ocasiões, peço aos meus pais para irmos passear para eu filmar algumas coisas, levo a minha câmara e vou à descoberta. Graças a isso, já descobri locais muito interessantes que passam despercebidos. 





“4242” – RODAGEM E REALIZAÇÃO

Sabemos que a curta-metragem "4242” foi inspirada na história de Cristina Caldararu, mas a decisão de começar uma nova curta veio antes desta inspiração, ou surgiu como consequência da mesma?
Já há algum tempo que queria fazer uma curta-metragem e tinha algumas ideias que gostava de desenvolver, mas eram complicadas por questões de casting e autorizações para filmar em determinados locais. À medida que fui conhecendo a Cristina, descobri que ela mesma tinha interesse em representação e, ao longo da conversa, achámos interessante pegar na história dela e adaptá-la para uma curta-metragem. 

Como foi trabalhar com o seu pai, produtor e autor da música original da curta?
O meu pai esteve sempre presente nas gravações. Nunca quis meter-se na parte criativa, mas quando que era necessário qualquer ajuda logística, apoiou-nos sempre. Em relação à música, foi uma grande ajuda porque é complicado arranjar direitos de autor dos temas. Em parceria com um músico inglês, Powlos, conseguimos criar uma banda sonora completamente original para "4242”.

Quais foram as principais dificuldades que sentiu na rodagem e realização de "4242”?

Uma das principais dificuldades que senti foram as limitações técnicas. Por vezes queria fazer certos movimentos de câmara que não eram possíveis devido à falta de equipamento. No entanto, esse mesmo problema deu-nos asas à imaginação. Por exemplo, numa das cenas, tive de andar sentada na bagageira de um carro em movimento, o que acabou por se tornar bastante divertido.
Outra grande dificuldade para gravar foi uma das cenas que envolvia a Cristina ter de entrar dentro do mar apenas com um vestido em pleno dezembro. Estava muito frio e mesmo assim ela disponibilizou-se a fazê-lo. O pior é que, na montagem, acabei por só utilizar alguns segundos.



“ESTES SÃO OS MEUS MAIORES OBJETIVOS.”

Fala-se que já tem uma segunda curta-metragem em preparação. O que podemos esperar neste próximo trabalho?
Nesta segunda curta-metragem, vou trabalhar novamente com a Cristina e alguns outros atores que tenho em mente. Pretendo melhorar alguns aspetos técnicos e explorar mais a ficção. Vai ser um trabalho mais ambicioso. 

Vai agora para a New York Film Academy (NYFA). Quais são as suas expectativas?
Ir para a NYFA vai ser uma grande experiência. Espero tirar o maior proveito possível e aprender o máximo que conseguir. Vão ser umas semanas duras devido ao grau de exigência, mas é isso que me vai ajudar a melhorar. "Fazer para aprender”, como o lema da escola diz. 

E agora, projetando o futuro: o que pretende fazer daqui a 10 anos?

Daqui a 10 anos, pretendo já ter estudado em universidades de cinema e quem sabe se não terei já realizado uma longa-metragem, ou se não estarei perto de o fazer. Neste momento, estes são os meus maiores objetivos.